FILME “AOS TEUS OLHOS” E A REPUTAÇÃO DIGITAL
“Rubens (Daniel de Oliveira)
é um professor de natação carismático e extrovertido, que dá aulas para
pré-adolescentes em um Clube. Querido por todos devido ao seu jeito brincalhão
e parceiro, ele se vê em apuros quando um de seus alunos, Alex (Luís Felipe Melo),
diz à mãe que o professor lhe deu um beijo na boca no vestiário. Alegando
inocência, Rubens é acusado pelos pais da criança e passa a ter que lidar com
um verdadeiro linchamento virtual, que tem início através de mensagens de
WhatsApp e explode de vez quando chega ao Facebook.”[i]
Bem, o filme é muito
interessante, notadamente do ponto de vista da Reputação Digital, ligando-se
com temas muito atuais como a Educação Digital, o Direito Digital, a Governança
Corporativa, o Compliance, a Privacidade,
a Intimidade, a Honra e como as empresas devem se preocupar com isso. Vale
lembrar do famoso caso da Escola Base[ii], um marco sobre questões atinentes
à ética jornalística e jurídica.
Nota-se que, por um ato, a
nossa vida pode ser devassada nas redes, seja ele merecido ou não. De modo que,
cumpre emitir algumas considerações sob a ótica do Direito Digital, da Segurança
da Informação e da Educação Digital, analisando a obra de ficção como se fosse
uma situação real, a saber:
1)
O ato do professor caso fosse real seria considerado
abuso sexual de menor e não pedofilia, pois esse termo designa a doença caracterizada
pela atração sexual que o indivíduo detém por crianças. Enquadramento legal, do
abuso: Ato libidinoso. Código Penal. Artigo 217-A. Pena de 8 a 15 anos.
2)
A Diretora do Clube age de forma omissa em
proteger a reputação da empresa e o próprio professor. Poderia ela ter
suspendido o Professor imediatamente após a denúncia, por exemplo, para a
devida apuração administrativa do relatado. Inclusive preservando a integridade
física do Professor.
3)
A Diretora teve uma conversa meio informal
com o Professor, por duas vezes. Deveria ter falado com ele na sala dela. A
conversa foi quebrada em duas partes. Ela deveria ter exercido o poder de
gestão e saber fazer as perguntas certas. Em certa cena ela deita no sofá da
sala dela e chega o Delegado, representando a polícia, demonstrando a sua
incapacidade de enfrentar o problema. Não fala com algum superior do Clube, não
se sabe sequer se existia. Portanto, se existisse eu creio que ela deveria ter
se socorrido de outra alçada para dar força a suas decisões administrativas.
4)
A empresa parece não ter um plano de gestão
de riscos. Não falam em acionar um(a) advogado para defender a empresa e o
professor. Compliance? Governança
Corporativa? Lidam com crianças, ou seja, um público em que há riscos críticos,
pois merecem os infantes a necessidade de proteção especial, conforme a
legislação existente, em especial o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
5)
O Clube não parece ter tomado nenhuma
providência também no que tange a notícia espalhada no WhatsApp e no Facebook.
Em tese poderia ter buscado uma liminar para remoção do conteúdo, alegando o
contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal, em prol do Professor e
visando minimizar ou refrear danos reputacionais percebidos pelo Clube.
6)
Por que o Professor foi falar com o menino em
lugar que não tem câmera? Ato totalmente temerário nos dias atuais, em que
somos vigiados com constância e considerando as responsabilidades dos adultos.
7)
O Clube treinou os funcionários? Havia políticas
internas definidas sobre o relacionamento Professor e Aluno, inclusive nas
redes sociais? Poderia o Professor ter os alunos nas redes sociais? O
Regulamento interno do Clube dispõe algo sobre tal tema?
8)
O Clube estava adaptado a Lei de Combate ao
Bullying, considerando que a legislação trata de tal obrigação, sendo que o
Bullying de caráter sexual é uma das modalidades contempladas pela lei.
9)
O Professor, por sua vez, tinha alguns
comportamentos inadequados ou arriscados (comentários sobre alunos e pais, alunas
nas redes sociais, fumar no Clube, beijar alunos e a localizada sunga do menino
no armário), a direção do Clube sabia disso? Já o havia repreendido? Fez
pesquisa de antecedentes antes de contratá-lo? Monitorava as redes sociais dos
colaboradores?
10) De
outro lado, o filme não mostrou a criança falando literalmente da situação. A
mãe que disse que o menino falou. Eu creio que seria recomendável que ele
passasse por um(a) psicólogo(a) para confirmar aquela afirmativa. Se eles
estiverem errados podem responder por denunciação caluniosa (artigo 338, do
Código Penal; pena de reclusão de 02 a 08 anos e multa), além de responder
civilmente.
11) E os
pais que curtiram e compartilharam eventualmente responderiam nas órbitas civil
e criminal.
12) A
situação foi informada por uma mãe. Mas e se fosse uma Fake News? Disparada por
um perfil falso? Descrédito dos concorrentes é uma forma de Concorrência
Desleal. Ou ainda e se fosse um inimigo capital do Professor ou do Clube que
tivesse plantado tal notícia?
Desta
forma, conclui-se que o filme faz uma importante abordagem dos riscos digitais
no cotidiano. Todos têm que estar atentos, mas, pelo filme, em especial as
empresas que lidam com público infantil tem que antever problemas dessa envergadura
que, por certo, podem inclusive redundar na sua quebra, já que um incidente
dessa natureza quando julgado pelos Tribunais das redes sociais geralmente
recebem penas severas.
[i]
Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-258685/.
Acesso em: 21.Out.2018.
[ii] “O Caso Escola Base começou em março de 1994, em São Paulo (SP). Os donos de uma escola infantil,
bem como o motorista do transporte escolar e um casal de pais de um aluno,
foram acusados por duas mães de abuso sexual. Foi na 6ª Delegacia de Polícia, na zona sul de São
Paulo (SP), que a queixa foi prestada contra a Escola de Educação Infantil
Base. Ao comparecer à delegacia para obter mais detalhes da acusação, os donos
da escola já começaram a sentir o abuso das autoridades. Sem maiores provas, porém, com
a cobertura da imprensa junto à conduta precipitada da polícia, o conhecido
Caso Escola Base recebeu grande repercussão. Embora nenhuma prova de abuso
sexual tenha sido encontrada – apenas a denúncia – a credibilidade da Escola de
Educação Infantil Base começou a ruir. A notícia foi veiculada no Jornal Nacional, da Rede Globo. A
mídia, no geral, sensacionalizava o fato, explorando o sofrimento das mães e
deixando de lado a ética jornalística. Atenta-se que, até esse momento, os suspeitos sequer haviam
prestado depoimento à polícia. A pressão da imprensa foi tanta que Richard, um
americano que não possuía qualquer ligação com o caso, foi preso, ainda que
tenha sido solto 9 dias depois.” Disponível em: https://canalcienciascriminais.com.br/caso-escola-base/.
Acesso em: 21.Out.2018.
Comentários
Postar um comentário